José Gonçalez: “A minha luta é o trabalho, é a paixão e o amor que ponho nas coisas”

Fotografia: ALFREDO MATOS

’30 Anos Depois’ é o mais recente disco de José Gonçalez, através do qual celebra três décadas na música. Um disco com produção de Ângelo Freire e que conta com Fafá de Belém e Pedro Joia como convidados especiais.

José Gonçalez concedeu uma entrevista ao Infocul, na qual abordou este disco, a discografia anterior, o percurso, o futuro do fado e ainda o lado mais emocional, que acaba por expor nas canções que escreve.

José Gonçalez que além de músico, conta com muitas outras responsabilidades ligadas à música. Desde a televisão e rádio, à programação do Festival Santa Casa Alfama, além de agente e manager, são muitas as áreas na qual actua.

Uma entrevista que apresentamos integralmente de seguida:

 

12º disco em 30 anos de carreira. Numa única palavra como classifica cada um dos discos editados?

1 (Em vinil) – “Fado Lusitano” – Sonho

2 – (1º Cd) – “Voz do Meu País” – Força

3 – “Natal em Família” – Alegria

4 – “Fadistolatria” (Ao vivo em Estremoz)  – Casa

5 –– “Fado em Sextilhas”- Eu

6 –- “Manhã de Luz e de Cristal” – Natal

7- “Entre Amigos” – Partilha

8 – “Viagem pelo Fado” – Fado

9 – “Dia 13” – Insegurança

10 – “Deus também gosta de fado” – Fé

11 – “Improvavel” – Cumplicidades

12 – “30 anos depois” – Resiliência

 

Quando começou a pensar neste disco e como foi a escolha de repertório?

Comecei a pensar neste disco há cerca de 2 anos, em 2018, sabia que estava a chegar aos 30 anos de carreira, em 2020, e queria fazer um disco de fado, todo ele de fados tradicionais com letras minhas. Que marca-se este momento taão importante da minha vida e do meu percurso musical.

Este trabalho conta com dois convidados. Um tema com Fafá de Belém e outro com Pedro Joia. Qual a história de cada um dos temas e também de cada convite que fez aos seus convidados?

Eu estava com o Pedro Joia a trabalhar no disco dos Sangre Ibérico, de quem era Manager, e um dia, por causa de umas letras, mostrei a letra ao Pedro Joia, e mostrei-lhe a musica, este tema era para ter entrado no meu disco anterior, mas acabou por ficar na gaveta, mas eu gostava particularmente da letra. Mostrei ao Pedro, e ele gostou muito, e disse-me que era um tema que dava para fazer um grande arranjos de viola, e eu desafiei-o a fazer os arranjos, ele 2 dias depois mandou-me esses arranjos, estava lindo, e eu disse-lhe porque é que não gravávamos só os 2 o tema, e nessa altura eu nem sabia bem para o que era, ou onde o iria pôr, e ele disse-me de imediato, marca um estúdio, e vamos gravar. E assim foi. Ele fez 4 faixas de Guitarras, e eu pus a Voz. Depois, quando ouvimos, decidimos que o tema iria ficar assim, sem mais nada. Não havia mais nada a acrescentar.

O tema com a Fafá foi diferente, um dia ouvi por acaso a música na net, e adorei, pensei logo que aquilo podia dar uma canção lindíssima. E decidi fazer uma letra. Eu fiz o tema a pensar na Ana Moura, mostrei-lhe e ela gostou muito, e gravou, e eu ouvi a maqueta desse tema gravado por ela, e estava lindo.  Mas, entretanto, esse disco dela ficou em stand by. Depois um dia, o Jorge Fernando estava no Brasil, com a Fafá, e começámos a falar, porque eu queria convidá-la para o projecto “Em casa de Amália”, e a determinada altura, porque eu sabia, a Ana já me tinha dito, que agora iria fazer outro projecto, começamos a falar de musica e de parcerias, e eu disse à Fafá que tinha este tema de que gostava muito e até podia fazer sentido gravado em dueto, e ela pediu para lhe o mandar. Respondeu 5 minutos depois a dizer que achava o tema lindo, e que ia gravar comigo. Assim, sem mais nada. Depois veio a Portugal, e gravámos. 

Neste disco conta com 10 fados tradicionais e todos com a sua letra. É mais fácil cantar aquilo que escreve?

Tem dois lados por onde podemos olhar. Por um lado, fica mais fácil, porque sabemos, conhecemos, a intenção do que escrevemos, e porque escrevemos. Por outro lado, fica mais difícil, exactamente pelos mesmos argumentos, sabendo que, expondo-nos, em palavras e em voz, podemos ficar demasiado transparentes. Mas esse é o risco de toda a gente que escreve, e se atreve a mostrar o que escreve. Porque ou não é verdade, nem verdadeiro, ou se é, não há como mascarar a verdade, e quem “souber ler” vê lá tudo!!!!! [risos]

‘A Valsa da Primavera’ conta com música de Paul Seneville. Esta é a única letra autorizada para aquela música. Conte-nos lá esta história e de como isto foi possível…

Este tema existe há muito como instrumental. Nunca tinha tido uma letra. E eu, no processo normal, contactei a SPA (Sociedade de Autores), a perguntar como poderia obter autorização para colocar uma letra na musica, ao que me responderem que era preciso preencher um formulário, que me enviaram, e mandar uma maqueta do tema, o que fiz. A SPA contactou a sua congénere que depois enviou um mail com a autorização, e as respectivas condições autoriais. E que o tema se passaria a chamar “A Valsa da Primavera, com autorias dos 2. Musica dele e Letra minha.

Cantor, letrista, produtor, agente, manager. 30 anos ligados à música, ao fado em particular, e com tanta função. Ao olhar para o percurso como o analisa?

Ui, estaria aqui 2 dias a responder!!! E ainda faltou aí, Radialista e na RTP  responsável e criador dos projectos: “Grande Prémio do fado” e “Em casa de Amália”… Analiso-o com a serenidade de quem sabe que tem feito um percurso de imenso trabalho, dedicação e luta, e sempre de forma honesta, sem pisar, ou maltratar alguém. Sabendo, e consciente, de muitos erros também. Mas eu sou um ser humano, e padeço de todos os males, e fragilidades dessa condição. E luto todos os dias para cada vez ser, um Ser, melhor.

Sente-se valorizado pelos seus pares e pelo público?

Nunca sequer isso esteve no meu horizonte, ou foi minha preocupação. E nunca ninguém fará nada se essa for a preocupação. Eu nunca fiz nada, ou faço, à procura de um qualquer reconhecimento, ou que valorizem, ou me valorizem. Não me arrogo um ser que quer ser reconhecido. A minha luta é o trabalho, é a paixão e o amor que ponho nas coisas, e o que eu acredito nelas, porque enquanto Homem, preocupado, interessado e atento, a minha preocupação é a minha consciência. É ela que me dirá à noite quando me deito, se fiz bem ou se fiz mal, se estou no caminho certo, ou me estou a desviar da única coisa que me deve mover. O realizar dos meus sonhos. Não para que me deem medalhas, mas para que eu possa sentir que vivi, que passei por cá, e que à minha maneira não fui apenas mais um espectador de bancada a criticar sistematicamente o treinador, e os que se expõem entrando em campo. Eu não. A minha preocupação nunca será a avaliação que os outros fazem, ou farão de mim. Até porque essa será sempre subjectiva, e estará sempre presa aos gostos, simpatias e interesses. E eu apenas sei que tenho de ser, ou tentar ser, alguém cada vez melhor e mais correcto, o resto será sempre uma avaliação dos outros, e como tal será sempre um problema deles, não meu. E, cada um, legitimamente, tem direito aos seus gostos e opiniões, como eu tenho às minhas. A única coisa que sei é que nunca me verão a dar peitos a medalhas, ou a andar por aí hipocritamente a dizer mal, ou a atacar ninguém. Como não o farei ao contrário. Quando não gostamos, quando não nos revemos, devemos reservar a nossa opinião. Porque afinal do que é que ela vale, e por outro lado não temos o direito de ofender, nem de ser incorrectos para ninguém. Resumindo, como em tudo na vida, sinto que alguns dos meus pares apreciam o meu trabalho, e outros não, e do publico penso exactamente a mesma coisa. Há quem goste, e há naturalmente quem não goste. Estou vivo, tenho saúde, trabalho, e alguns amigos. Isso é que é o fundamental.

Esteve ligado à rádio, e continua, também à televisão, mas a música foi sempre a companheira de viagem. Sempre quis a música como profissão ou quando era criança sonhava outros caminhos?

Eu continuo ligado à Rádio, será sempre a minha paixão a par do fado e do Hóquei em Patins. Jamais deixaria de fazer programas de radio, agora, e por causa da pandemia, e porque os meus programas são praticamente sempre com convidados, de entrevistas, é que, por razões obvias de segurança é que não tenho ido gravar, se tudo continuar a acalmar em Janeiro lá estarei, como sempre estive. A minha profissão é a Rádio. Eu sou funcionário da Rádio Amália, e espero sê-lo por muitos anos. O caminho que sempre sonhei, foi este, a radio e televisão, tudo a partir da música, neste caso do Fado!

Voltou a ter Ângelo Freire como produtor do disco. Porquê a escolha e quais as marcas mais significativas deste músico enquanto produtor? [NDR: Ângelo Freire participou no disco ‘Improvável’ como músico e não como produtor. O produtor desse disco foi Jorge Fernando]

O Ângelo ainda não tinha produzido nenhum disco meu, nem de ninguém. É o primeiro disco que ele produziu. Já tinha era gravado comigo. A escolha para mim é normal, e fruto do nosso relacionamento de enorme respeito e amizade. Conheço o Ângelo há muito tempo, foi o Jorge Fernando que me o apresentou. Somos amigos na música e fora dela. O Ângelo sabe do que eu gosto, sabe como sou, difícil, mas entende-me, e vice-versa. Foi um gosto, uma honra! Um Ângelo é, já hoje, um dos maiores guitarristas de sempre.

Quem foram os músicos que o acompanharam neste disco?

O Ângelo, o Rogério Ferreira, o Francisco Gaspar. Na valsa da primavera tive Joana Cipriano – Viola de Arco; Romeu Madeira – Violino, Ana Pereira – Violino, Nuno Abreu – Violoncelo.

A fotografia do disco é o José Gonçalez em criança. Pergunto, o que existe daquele menino, no homem que é hoje?

Espero que exista tudo, o que marcava aquele menino enquanto Ser. Aquele menino era feliz, e cheio de sonhos. Com toda a família viva, sem problemas, e na terra natal, Estremoz. Hoje continua a ser tudo aquilo, mas com outra experiência, com menos família, mais maduro, em muitas coisas desiludido, noutras resignado, e nalgumas ainda iludido. Sou aquele menino 50 anos depois, mais tudo aquilo que de bom e mau vivi, e passei, e me faz o homem que sou hoje. 

 

Como consumidor de música, se ouvisse este disco que nota daria e que avaliação faria?

A única avaliação que posso, e devo fazer sobre este disco, é que foi feito com enorme seriedade, e que sei que cada um deu, e fez, o melhor possível.

Ao longo do seu percurso tem tido vários duetos (o disco ‘Improvável’ foi disso exemplo). Qual o dueto que ainda não fez, mas que gostaria muito de faze?

Há 2 ou 3 pessoas com quem gostaria muito de fazer 1 dueto. Por razões obvias, de amizade e proximidade, com a Ana Moura, a Mariza, o Zambujo. E um “impossível”, com o Júlio Iglésias!!!! [risos]

Sendo um homem que utiliza e valoriza a palavra escrita, pergunto-lhe se o magoam mais as coisas que são escritas ou que são feitas?

As feitas, sem dúvida, o que se escreve, pode ter sido um momento, alguma raiva, muitas vezes coisas de momento. O que nos fazem é um facto, até porque muitas vezes existe já algo de racional, ou não, naquilo que se faz, algo mais pensado! Mas também aprendi a relativizar isso. Cada um sabe de si. E, é isso que acredito, cá fazem, cá se pagam, para o bem e para o mal. Hoje já, praticamente, só me magoa quem eu quero. Porque se eu não valorizar o que de mau me possam fazer, não existe magoa nenhuma. É que há pessoas que se julgam tão importantes, e que as suas opiniões são tão importantes, que julgam que pelas coisas que dizem magoam alguém, ou que a sua opinião é tão importante, e relevante a esse ponto. Felizmente há muito que não me visto dessa arrogância, e muito menos dessa maldade. Já, felizmente, pelo menos esse estádio de ignorância, soube ultrapassar.

Voltando ao disco, qual o tema que mais o marca neste trabalho e porquê?

Esta é Fácil. A Valsa da Primavera. Não é todos os dias, às vezes nem numa vida inteira se consegue um dueto com uma cantora da dimensão da Fafá de Belém.

Olhando para nova geração que surge no Fado, e sendo programador do maior festival de fado, quais os nomes que sente que podem ir longe?

Muitos, bastantes. Quer ao nível de Músicos, como de Fadistas, por exemplo, e sei que, a não ser que me esteja a escapar alguém, já todos foram ao festival: O Geadas, A Diana Vilarinho, a Maria Emília, a Joana Almeida, a Maura, a Beatriz Felício, a Felizardo, o Buba, O Tiago Correia, o Miguel Moura…(vou-me esquecer de alguém de certeza, mas não é por mal [sorri]… a Sara Correia já vai muito longe!!!

Sendo o Fado uma tradição, ele pode ser inovado ou renovado?

Tenho uma visão muito pragmática sobre isso. Sempre se fez isso, sempre. Ao longo de toda a história do fado! E sempre assim será, até para a sobrevivência dos próprios géneros da world music, e todos os outros. Não continuamos a cantar a História de alguém que foi para a vala da canalha, como os músicos já não tocam, é um exemplo”, Tónica/dominante, primeiro/quinto grau, até nos fados mais simples se utilizam hoje dezenas de harmonias, e harmonizações. Tudo o que se fecha em si, o que torna hermético, morrerá necessariamente. Só quem abra a porta para se poder saír e entrar, poderá continuar a viver. Tudo o que se fecha em si, nas suas amarras, presunções, acaba por definhar, mais tarde ou mais cedo. É fundamental a inovação e a renovação… come dizia Gedeão “…o mundo pula e avança…”

Qual a história que nunca contou e que mais o marcou em 30 anos de carreira?

Não tenho nenhuma. Eu falo muito, não tenho nenhum tipo de segredos, e sempre contei tudo, todas as minhas histórias!

De todos os temas que já gravou, em discos seus, qual o mais importante deste percurso?

A Valsa da primavera!

Como acha que as pessoas o vêm e como gostava de ser visto?

Tal como já disse lá atras, não me preocupa muito como me veem para além dos meus amigos e daqueles que comigo convivem e me conhecem verdadeiramente. O resto será sempre subjectivo e muitas vezes inquinado pelas razões que já disse atras. Mas ainda assim, no geral, penso que as pessoas me veem como alguém que luta pelos seus sonhos, que trabalha, que vai atras, que não fica à espera de que as coisas lhe aconteçam. Gostaria apenas que um dia me vissem como alguém que chegou ao fim da vida cumprindo tudo o que lhe foi possível. Que lutou a cada dia para ser um Homem melhor, e que façam uma avaliação melhor do Ser, Zé, que chegou ao fim, do que o Ser, Zé, da linha de partida. Isso sim, será sinal de que me cumpri, e que percebi, fiz perceber, qua a vida é um processo de construção, e que no fim somos melhores do que no principio!

Qual a mensagem que deixa aos nossos leitores?

Para já desejo que estejam e fiquem bem. Que rapidamente nos possamos encontrar e continuar a celebrar a vida. E agradeço tudo o quanto me têm dado, e o tanto que me têm ensinado. Depois desejo um Bom Natal, como for possível. E que para o ano voltemos renovados, mais capazes, e mais fortes!

Rui Lavrador

Iniciou em 2011 o seu percurso em comunicação social, tendo integrado vários projectos editoriais. Durante o seu percurso integrou projectos como Jornal Hardmúsica, LusoNotícias, Toureio.pt, ODigital.pt, entre outros Órgãos de Comunicação Social nacionais, na redacção de vários artigos. Entrevistou a grande maioria das personalidades mais importantes da vida social e cultural do país, destacando-se, também, na apreciação de vários espectáculos. Durante o seu percurso, deu a conhecer vários artistas, até então desconhecidos, ao grande público. Em 2015 criou e fundou o Infocul.pt, projecto no qual assume a direcção editorial.

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