D.R.

Escrever sobre o 25 de Novembro de 1975 é sempre arriscado, mas escrever sobre uma data que se queria propositadamente apagada da memória coletiva do povo Português não pode ser visto nem interpretado de forma imprecisa, deve sim ser visto como um agradecimento àqueles que mesmo correndo riscos lutaram, alguns até à morte, pela consolidação da soberania e democracia de Portugal.


Porque é disto que falamos, falamos do dia que deu por terminada a intentona de transformar Portugal numa ditadura de sinal contrário, uma ditadura de inspiração e patrocínio soviético. Uma ditadura, que tal como todas, não foi pedida por ninguém. 

Pelo contrário, o partido que na penumbra liderava este processo, partido este que se afirmava ser a voz dos portugueses, teve uns pífios 12,5% em urnas na primeira eleição livre após queda do estado novo e, não satisfeitos resolveram envergar por uma revolução popular armada. Cientes da derrota que lhes viria a ser entregue, encobriram-se e sairam de cena.

Este longo dia acumula todos os acontecimentos que vinham a ter lugar na esfera militar, partidária e civil deste o 25 de abril até então. 

A importância do 25 de Novembro de 1975 é de tal ordem que se traduz no término do processo revolucionário em curso que já contava com nacionalizações, saneamentos e ocupações de propriedades um pouco por todo o país. Traduz-se no fim da perseguição a actores políticos. Traduz-se no fim do controlo de sectores militares, traduz-se no fim de uma guerra civil que estava a milímetros de despoletar. 

Para responder aos anseios e ambições dos Portugueses era necessário travar este golpe de estado que fora organizado por uma minoria que em eleições foi arrasada e colocada no seu real posto de importância, essa minoria, dizendo se defensora da liberdade, promotora dos valores de abril promoveu arduamente, sem consulta dos Portugueses, nacionalizações e saneamentos, atentados e assassinatos, sequestros e raptos, em busca de um ideal que não era partilhado nem desejado pela maioria dos Portugueses.

Esta minoria inspirada nos anais da revolução do proletariado entendeu que por via democrática não iria chegar ao poder e por isso a revolução, a existir, teria que ser armada. Esta minoria, em busca do seu ideal de sociedade, (que de resto já provou fracassar e deixar rastos de morte e miséria por todo o lugar onde passou) entendeu que as armas, as armas militares, deviam estar ao serviço da classe trabalhadora, para que se pudesse implantar, à força, uma ideologia que não colhia votos em urna. 

E por isso foi necessário que o regimento de comandos da Amadora liderados pelo Coronel Jaime Neves travasse este processo que ia contra a vontade do povo português. Foi pela bravura destes Homens que têm a democracia como bem máximo de uma nação que hoje conhecemos um Portugal livre e soberano.

E por isso a reflexão que quero deixar ao leitor é um olhar sobre a história, é um olhar sobre os acontecimentos que nos permitem hoje estar em liberdade. Porque ninguém pode ser livre com armas apontadas, ninguém é livre se não puder votar, ninguém é livre se não puder expressar a sua opinião, ninguém é livre se lhe for vedada a ambição.

A reflexão a que o 25 de novembro nos deve levar é de responsabilidade pela liberdade que somos herdeiros, porque tal como aqueles que durante o estado novo sonhavam com um Portugal livre viram o seu sonho ser, pouco a pouco, destrutivo por alguns que se diziam defensores da liberdade. Também nós devemos, com responsabilidade preservar a herança da revolução do 25 de abril consumada a 25 novembro. 

E preservar a liberdade é exerce-la, é gozar do sentido critico que temos e podemos partilhar, é poder escolher alternativas, é escolher em quem quero votar. É poder usufruir do projecto europeu e tudo aquilo que ele tem para nós. É ter uma comunicação social ao serviço da verdade e da informação. Preservar a liberdade é também celebra-la em novembro.

Hoje estamos em liberdade porque em novembro de 75 houve quem pronta e corajosamente destruiu os sonhos de quem se preparava para esculpir um pesadelo coletivo no povo Português, uma réplica à escala da URSS hipotecando a liberdade de escolha dos Portugueses.

Nessa altura foi generalizado o consenso de saudação àqueles que, neste dia, mudaram os destinos de Portugal, tão generalizado que este consenso abarcava figuras notáveis do PSD, do CDS e até do PS, que hoje envergonhado e sem coluna vertebral renega a história. Hoje, afirmar que o 25 de novembro foi um momento de viragem nos destinos de Portugal é um acto de coragem. Hoje afirmar que o 25 de novembro é um dia de liberdade, uma ode à soberania, um dia de alegria pode fazer confusão a alguns, mas desse lado já estamos acostumados que não exista uma boa convivência com a verdade por falta de reconciliação histórica.

Que a saudação a este dia não seja apenas um acto de coragem, mas um acto de respeito à história que não pode ser reescrita.


José Coutinho
Presidente da Juventude Popular Distrital de Setúbal